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O investimento direto não é mais aquele
 
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Causou um certo rebuliço a informação de que o Banco Central reduziu em 15% sua projeção para o montante de investimentos estrangeiros diretos (IED) em 2010. Dos US$ 45 bilhões antes previstos, o BC espera agora ingressos de US$ 38 bilhões.

Defensores do câmbio valorizado engoliram em seco diante da possível perda de seu melhor argumento para a manutenção de juros básicos altos. "Os déficits externos não preocupam porque serão tranquilamente cobertos pelo ingresso de investimento direto", diziam, a cada nova inflexão negativa nas contas externas. Agora, com as indicações de que o IED não vai cobrir o déficit, alguns fingem que a história não é com eles e alardeiam, com ares de denúncia, um aumento da dependência do País ao capital especulativo.

Essa não deixa de ser uma preocupação vazia. Afinal, o IED líquido cobre cada vez menos os déficits externos. IED líquido é aquele que resulta da diferença entre os capitais que entraram e os que saíram. No argumento dos que defendem a política monetária praticada pelo governo, só o fluxo de recursos externos é uma inexplicável via de mão única.

Ficar de olho apenas no ingresso de investimentos estrangeiros "produtivos" é lançar um olhar míope sobre os mecanismos de fechamento das contas externas. Visto que os ingressos de recursos não são feitos a fundo perdido ou a guisa de doação, eles geram passivos - exigências de ressarcimento no tempo. Dependendo do prazo de reembolso, nem mesmo se pode garantir que o IED "produtivo" seja produtivo.

Olhar o ingresso de recursos externos sem olhar as saídas é ignorância ou má-fé - quem sabe as duas coisas. E como estão as saídas? Aqui recorro aos dados do balanço de pagamentos, analisados pelo economista e consultor Silvio Figer, que acompanha o movimento das remessas de lucros e juros com a mesma lente que observa o ingresso de IED.

No primeiro quadrimestre deste ano, conforme artigo publicado por Figer, no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, em 14 de junho, entrou de capital estrangeiro, entre investimentos em participação no capital de empresas e empréstimos inter-companhias, um total de US$ 7,88 bilhões. E saíram. US$ 6,9 bilhões. O saldo positivo entre o que entrou e o que saiu se resumiu a modestos US$ 900 milhões - pouco acima de 10% do volume ingressado.

Se tal saldo se repetisse pelos outros dois quadrimestres do ano, o total líquido de investimento estrangeiro direto se resumiria a menos de 0,2% do PIB. Em relação ao déficit em contas correntes projetado para o ano, equivaleria a menos de 6%. Seria uma novidade embalada na crise européia e, portanto, não estrutural? A resposta, infelizmente, é não.

Entre 2003 e 2007, o volume de remessas de lucros equivalia, em média, a 50% do total de IED destinado a participações de capital, com um pico de 80,5%, em 2006. Em 2008 e 2009, com a crise, o total de remessas subiu para o equivalente a 90% do IED ingressado. E está mantendo o padrão em 2010.

Figer verificou que, nessas proporções, entre 2003 e 2007, as remessas anulavam os ingressos de capitais externos "produtivos" a cada dois anos. Depois da crise, o prazo encurtou para pouco mais de um ano. A conclusão do economista, diante dos dados, é a de que esse comportamento, ao contrário da velha crença, não caracteriza um movimento de investimento produtivo. Realmente, em que ramo de atividade um investimento na produção gera retorno de 100% do capital aplicado em pouco mais de 12 meses?

Resta, então, uma única conclusão. Trata-se, isso sim, de um movimento financeiro, destinado à geração de lucros financeiros. O volume das remessas e o prazo curto em elas anulam os investimentos são típicos de operações de arbitragem de juros, às quais se acrescenta um eventual ganho cambial pela valorização do real.

Há, no caso dos investimentos diretos, uma confusão conceitual e uma distorção contábil. O BC classifica os capitais ingressados como deve classificar, pelos destinatários: a indústria A, a rede varejista B, o banco C. Mas daí ao que a tesouraria das empresas faz com o dinheiro, o que não é acompanhado pelo BC ou quem quer seja, vai uma longa distância.

Para encurtar a história, os investimentos diretos podem, é claro, ser destinados à produção. Mas também podem ter outros destinos e outros objetivos, inclusive os meramente especulativos.  O que parece ser cada vez mais o caso.


Por José Paulo Kupfer
 
 
 
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